A brevedade de uma poética

Por Rhina Landos Martinez André *
Universidad Federal de Mato Grosso, Brasil

Roque Dalton

Reconhecido por suas ironias tecidas de avelã, por seu permanente sorriso de mocinho e uma poética combativa, o escritor salvadorenho Roque Dalton teve uma vida efêmera; nasceu em San Salvador, El Salvador em 1935 e morreu em 1975

Dalton surge como poeta com um grupo de escritores que se congregam na chamada Generación Comprometida que emerge durante os anos 50-53, muito reconhecida até nossos dias. Alguns membros encontran-se ainda vivos. Todos os escritores dessa Geração produziram em um ambiente de terror político onde a censura e a violência constituiam a marca da vida porque as condições políticas e econômicas de El Salvador eram, e ainda são, extremamente injustas: pobreza, fome, violência, analfabetismo, em fim, violência não somente física.

Quando essa Geração desponta filia-se numa posição dialética, marxista, radical frente ao fazer poético que partia de una definição ética e estética comprometida com a sociedade.

A radicalização de sua postura tinha como pano de fundo a crise social e a repressão violenta da época. É um período convulsionado politicamente não somente em El Salvador, era comum na América Central e se entendia por toda América Latina. A arte comprometida foi a bandeira ideológica: estruturar a literatura em função do compromisso a uma determinada forma de luta era um dos objetivos dos escritores militantes. Portanto, Dalton não estaria alheio ao acontecer político e social e a seguir por uma linha comprometida socialmente. Fazia crítica acérrima e mordaz ao regime ditatorial, à situação de miséria e à dependência econômica que tem vivido a população desde a época colonial. Foram essas algumas das causas pelas que sufreu forte persecução. Esteve na prisão por varias vezes e viveu exilado no México, Cuba, Checoslovaquia, Costa Rica, etc. Em Cuba publicou várias obras e trabalhou com Casa de las Américas.

Viajou em 1973 ao Chile, pais onde conheceu de perto o movimento socialista democrático de Salvador Allende. Entrou clandestinamente várias vezes a El Salvador e outras tantas fora feito prisioneiro. Publicou quase toda sua obra no exílio. Sus última obra publicada foi Poemas clandestinos en 1974. Incorporou-se às filas guerrilheiras clandestinas, com o Ejército Revolucionario del pueblo - ERP a lutar por mudanças sociopolìticas.

Tal vez o mais incrível da vida de Dalton seja ter sido assassinado pelo grupo ERP pouco tempo depois de ter-se incorporado, sob falsas acusações de espionagem, por membros colegas dessa facção guerrilheira, em 10 de maio de 1975.

Portada de Poemas clandestinos

PRODUÇÃO

Poesía:



Mía junto a los pájaros,1958
La ventana en el rostro, 1961
Los testimonios, 1964.
Los hongos, 1971
Un libro levemente odioso, 1973
Poemas clandestinos, 1974

Prosa



Novela testemunho: Miguel Mármol. Los sucesos de 1932 en El Salvador ,1972
Novela-collage: Las historias prohibidas del pulgarcito, 1974.

Simultaneamente a sua produção poética escreveu vários ensaios: César Vallejo (1963), El intelectual y la sociedad, com René Depestre, Roberto F. Retamar e outros (1969); ¿Revolución en la revolución y la crítica de la derecha (1970). Elaborou as monografias: El Salvador (1963) e México (1964). Em teatro: Caminando y cantando, Animales y héroes de la tierra del sol, Los helicópteros (1980). Escreveu a novela-collage Pobrecito poeta que era yo... publicada postumamente em 1976, na Costa Rica.

Cuaderno-Roque Dalton

SELEÇÃO DE POEMAS

Assim também não

Poesiya
Poecía
Pohesía
Certo indefinido encanto que
bayula e suspende o ánimo
versitos de vocês
Puetas
virus da melomania
logogrifo da logomaquia
logística da declamação
Poesilha
de vocês
queridos
portaliras
gay-sabios
liróforos
panidas
aedas
trombeteiros
vates
trovadores
bardos
joglares
rimadores
pensanautas
líridos
cantores
hinastas
musaguetas
Pois-sim-já
querida
que fariamos sem você
os cultos
os duros
os responsáveis
os preocupados
os donos do futuro
os Premio Nobel in fieri
os Homes novos de Segunda mão
os monolíticos
os firmes
os a-Guarda-morre-mas-não-se-rende
entre o terceiro e quarto gole
ao acordar em plena primavera
à hora dos jogos em ESTHER
ao dizer povo que me escuta
ao estar sós
ao autocriticarnos.
         (Dalton, Roque. Un libro levemente odioso, UCA Edit San Salvador, 1997, pág. 103-104).

Poema de amor

Os que ampliaram o canal de Panamá
(e que foram classificados como silver roll e não como
gold roll)
os que repararam a rota do Pacifico
nas bases da Califórnia,
os que apodreceram nas prisões de Guatemala,
México, Honduras, Nicarágua,
por ladrões, por contrabandistas, por estafadores,
por famintos,
os sempre suspeitosos de tudo
("me permito remeter este sujeito 
por esquineiro, suspeitoso
e com o agravante de ser salvadorenho"),
os que encheram os bares e os bordeis
de todos os portos e capitais da zona
("A Gruta Azul", A Calzinha", "Happyland"),
os semeadores de milho em plena selva estrangeira,
os reis das páginas vermelhas, 
os que nunca sabem de onde são,
os melhores artesãos do mundo,
os que foram costurados a balas ao atravessar a fronteira, 
os que morreram de malária
no inferno das bananeiras,
os que choraram bêbados pelo hino nacional
sob o ciclone do Pacífico ou a neve do norte,
os encostados, os pedintes, os maconheiros,
os guanacos* filhos da puta, 
os que apenas conseguiram voltar,
os que tiveram um pouco mais de sorte,
os eternos indocumentados,
os fazdetudo, os vendedetudo, os comendetudo,
os primeiros em tirar a faca,
os tristes mais tristes do mundo,
meus patrícios,
meus irmãos.

*guanaco: camponês 
       (ROQUE Dalton: Las historias prohibidas del pulgarcito. San Salvador, UCA Editores, 1997, págs 199-200)
Portada Taberna y otros lugares

Má notícia em um pedaço de jornal

           Hoje quando  morrem meus amigos
        só morrem seus nomes.

    Como aspirar, desde o violento poço,
     abarcar mais que as tipografias,
    resplendor de negruras delicadas,
        flechas até as íntimas memórias?

    Somente quem mora fora das prisões
    pode honrar os cadáveres, lavar-se
    da dor de seus mortos com abraços,
         coçar com unha e lágrima as lápidas.
          Os prisioneiros não: somente assobiamos
          para que o eco acalme a notícia.
        
   (DALTON, Roque: Taberna y otros lugares, UCA Editores, San Salvador, pág. 65).

XVI Poema

As leis são para que sejam cumpridas
pelos pobres.
As leis são feitas pelos ricos
para dar um pouco de ordem á exploração.
Os pobres são os únicos cumpridores de leis
da história.
Quando os pobres façam as leis
não haverá mais ricos.
           (DALTON, Roque. Las historias prohibidas del pulgarcito. San Salvador: UCA Editores, 1997. Págs. 203)

Por que escrevemos

A gente faz versos e ama
o estranho sorriso das crianças
o subsolo do homem 
que nas cidades azedas disfarça sua lenda,
a instauração da alegria que profetiza a fumaça das fábricas..

A gente tem nas mãos um pequeno país,
horríveis datas,
mortos como facas exigentes,
bispos venenosos, imensos jovens em pé
sem mais idade que a esperança,
rebeldes padeiros com mais poder que um lírio,
alfaiates como a vida,
páginas, noivas, esporádico pão, filhos doentes,
advogados traidores
netos da sentencia e o que foram,
bodas desperdiçadas de impotente barão,
mãe, pupilas, pontes,
rompidas fotografias e programas. 

A gente vai morrer
amanhã,
um ano,
um mês sem pétalas dormidas;
disperso vai ficar sob a terra
e virão novos homens
pedindo panoramas
perguntarão que fomos
quem com chamas puras lhes antecederam 
a quem maldizer com a lembrança.

Bom.
Isso fazemos:
custodiamos para eles o tempo que nos resta.
                      (Dalton, Roque. La ventana en el rostro:  San Salvador: UCA- Editores, 1998, pág. 61-62)

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* * Rhina Landos Martínez André
Doctora en Lengua española y literatura española e hispanoamericana por la Universidad de São Paulo - USP. Es profesora de Universidad Federal de Mato Grosso - UFMT, de Cuiabá -MT en el Instituto de Lenguajes en el Programa de posgraduación -Maestría en Estudios del Lenguaje - MeEL. Su línea de investigación es la representación de la violencia en la narrativa española de posguerra y en la producción literaria hispanoamericana de la segunda mitad del siglo XX. Autora del libro Testimonio. Catástrofe. Representación: Roque Dalton. São Paulo: Editora LETRAVIVA, 2005. Organizadora de la Colección Estudios Hispánicos: Lengua española y literatura. São Paulo: Compañía Editora nacional, 2008 y autora de varios artículos publicados en revistas especializadas.
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20 de julio de 2009

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